Entrevista: Artigo na Revista Guitarra Clássica    

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A reconstituição dos instrumentos de cordas da Idade Média.

Toda a tentativa séria de reconstituição se rege por um processo arqueológico. Os resultados são mais satisfatórios na medida em que se dispõe a partida de dados materiais comprovados, directos (históricos) e comparados (etnográficos).
No caso particular dos instrumentos musicais de cordas da Europa medieval deparamo-nos logo a partida com uma dificuldade que é a escassez de instrumentos originais (historicamente contemporâneos).
Assim os estudos acerca destes instrumentos costumam ser baseados quase exclusivamente em fontes indirectas, iconográficas e verbais.
Os instrumentos originais existentes são, no entanto, uma fonte preciosa, embora por vezes ainda pouco estudada, muitos deles não se encontram nos museus de instrumentos musicais, onde são raros os exemplares pré 1500, e estão espalhados por museus de arte e arqueologia nunca tendo sido referenciados na literatura organologica. E interessante ainda verificar que os instrumentos encontrados em escavações são em grande parte de carácter popular enquanto que os preservados a superfície pertenciam a nobreza e a igreja.

Quando se pretende iniciar um trabalho de reconstituição dos cordofones medievais e embora existam dados iconográficos que nos apresentam uma imagem bastante ampla dos instrumentos que eram usados nessa época, a sua fidelidade com a realidade nunca poderá ser avaliada com precisão. O propósito de fazer ressurgir um património instrumental e sonoro sem dispor de modelos tangíveis transforma-se assim numa autêntica aposta.
Com efeito a iconografia nunca permite perceber todas as características de um instrumento. A sua representação geralmente frontal oculta a estrutura dorsal, da mesma forma as informações disponíveis sobre a sua estrutura interna, os tipos de madeira, as espessuras ou as cordas se mantêm algo vagas.
Algumas das reconstruções modernas propõem soluções de construção profundamente influenciadas pelos conceitos clássicos dos instrumentos de cordas, como são: o uso de alma, a colocação de barras harmónicas ou a construção ensamblada do corpo. O que em nenhum caso é representado mesmo na iconografia mais precisa. Torna-se pois necessário adoptar a postura necessária para pôr de lado o “saber fazer académico e procurar métodos e técnicas esquecidas de modo a distanciarmo-nos dos reflexos de construção dos instrumentos actuais.
E aqui que surge uma fonte muito importante que são as culturas e povos onde ainda hoje são usados instrumentos musicais que se mantêm desde a séculos e que continuam a ser construídos e tocados de formas muito próximas com as da idade média.
São exemplo disso os povos Árabes do Norte de africa e de certas regiões da Europa. Trabalhos recentes têm demonstrado que a construção “monoxila”, (o corpo, braço e cravelhame escavados de um bloco único de madeira), sobreviveu até muito mais tarde do que se pensava, apenas se tendo começado a construir com peças soltas e coladas, (construção ensamblada), a partir do século XV.

Em relação as madeiras o construtor medieval usaria as madeiras autóctones da sua região já que as madeiras exóticas que são comuns nos nossos instrumentos actuais não seriam fáceis de obter nesta altura e apenas se tornariam mais acessiveis a partir do renascimento com os descobrimentos e as novas trocas comerciais … continua…

 
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